COMUM - UNIDADE
- Marina Linhares

- 17 de dez. de 2024
- 4 min de leitura
A palavra “comunidade” tem origem no latim communitas, que deriva de communis, composto por: “com”, que quer dizer junto, em comum, e “munis”, relacionado a “encargo” ou “serviço”. Assim, “comunidade” quer dizer, de forma geral, um conjunto de pessoas unidas por vínculos em comum.

Esse é um daqueles textos que estava transbordando dentro de mim, e que eu mal podia esperar a hora de me sentar para deixar passar para as palavras todas as sensações que têm morado aqui dentro, é também o último que escrevo aqui do Brasil esse ano.
Minha primeira estadia no monastério budista em que trabalho até hoje, no Nepal, foi em 2019. Me lembro como se fosse hoje do momento em que o avião pousou na cidade de Kathmandu, naquela que já era minha segunda visita ao Nepal, e eu senti mas uma vez a profunda sensação de pertencimento. Lembro dos portões vermelhos do monastério se abrindo enquanto o táxi que me levava entrava, junto com o monge Norbu, que foi me buscar. Logo no meu primeiro dia, comecei o trabalho com os monginhos que moram lá dando aulas de inglês e cuidando da saúde, do emocional, e do que mais fosse possível servir lá.
Mas algo me chamou atenção: a forma como se vivia em comunidade naquele lugar. Nos momentos de intervalo entre as aulas, me sentava no pátio com os monges para tomar o chai (uma bebida típica com leite, chá preto e especiarias) e conversar sobre a vida. Assim, no meio da semana, tínhamos tempo para dialogar, algo que eu não experimentava na minha rotina de aulas no Brasil. Eu sempre tinha companhia nos momentos das refeições, das meditações, e até para andar pelo bairro.
O monastério ainda não possuía máquina de lavar naquela época, e era em grupo que lavávamos todas aquelas roupas vermelhas que os monges vestem: na hora de torcer, um segurava de um lado, o outro de outro, e juntos, como quem dança, torcíamos também o tempo, fazendo da água um fio de memória e conversa escorrendo entre as mãos.
Ao voltar para a minha rotina no Brasil, procurei trazer esse compartilhar para o dia a dia. Dava aulas de yoga na praça e também no salão do prédio em que morava com o objetivo de unir a vizinhança, conhecer as pessoas, criar laços. As aulas do prédio foram ficando cada vez mais vazias, as da praça também, mas mantive o projeto por quase 6 anos.
As reviravoltas da vida são como o vento que sopra sem aviso, desmancham raízes e nos carregam como folhas de outono. Esse ano mudei casa, e de cidade, não por fuga, mas por voo – levando comigo o que sou, o que fui, e no desconhecido, dançando um novo mapa. Encontrei mais do que ruas e casas desconhecidas – encontrei braços que se estendem, vozes que se ouvem, e corações que batem no mesmo compasso. No centro da grande selva de pedras, vi o ‘eu’ se dissolver no ‘nós’, descobri uma vida em comum – unidade.
Enquanto fazia a mudança, fui agraciada pelas prostitutas que trabalham na minha rua e me ajudavam a carregar as caixas da mudança, além do zelador que gentilmente carregava as malas mais pesadas para o segundo andar. Nos dias em que as lágrimas vinham sem pedir licença, e o medo se aninhava quieto no peito, foram os amigos e professores da escola de Yoga (não por acaso, chamada de Coletivo) que me estenderam suas mãos como raízes no chão. Ali, entre respirações e silêncios, me encontrei sustentada – como se cada olhar fosse um abrigo, e cada abraço, um fio de luz trançado para que eu não me perdesse.
Conheci na lavanderia pessoas de diferentes lugares do mundo, e juntas colaboramos umas com as outras, seja auxiliando a dobrar o lençol que saiu seco para não arrastar no chão, seja conversando enquanto esperamos o ciclo de lavagem das máquinas. Preciso falar do Lorenzo também, o filho da dona da lavanderia, que adora bater um papo comigo, e aos dez anos de idade, usa um vocabulário compatível com alguém de cinquenta anos para me contar suas histórias.
Aos domingos a vida se faz mais lenta, como quem respira fundo depois de uma longa semana. É nesse intervalo sagrado que me encontro em comunidade com os amigos que a meditação trouxe ao meu caminho. Compartilhamos silêncios que falam mais do que palavras, presença que sustenta. Depois de meditar, almoçamos juntos, e ali, entre pratos que circulam e histórias que se entrelaçam, a comunhão acontece mais uma vez.
Encontrei comum-unidade com os funcionários do estacionamento em que paro a moto também. Eles sabem o horário e os dias em que saio e quando volto, costumam me avisar da previsão do tempo e me perguntam quando demoro, querendo saber se está tudo bem. Em horas assim, sinto o tremor nas pálpebras e a emoção me toma o peito. Por delicadeza e cuidado, me perco.
Cultivei em mim esse apreço pela comunhão, pelo afeto, pelo cuidado cercado de amor em cada gesto. Tenho mantido os laços, e tentado desfazer os nós. Há tanta troca também com os alunos, somos suporte uns para os outros, mãos dadas. Já agora sei que é tempo de não caber, de atravessar, e é em direção aos outros que a cura é possível.
O amor em ação, o servir é um caminho tão profundo capaz de curar o coração tanto quanto qualquer prática terapêutica. Ao darmos uns aos outros, aprendemos a experimentar a reciprocidade, o que afeta um indiretamente, afeta todos os outros. Nossa disposição em participar ativamente de uma vida compartilhada desperta nossa consciência sobre a interdependência. Peck define comunidade como uma reunião de um grupo de indivíduos que aprenderam como se comunicar honestamente uns com os outros, cujos relacionamentos são mais profundos que suas máscaras de compostura, e que desenvolveram o compromisso significativo de alegrar-se juntos, lamentar juntos, e de deleitar-se uns com os outros, transformar em suas as condições dos outros, é na comunidade e através dela que reside a perfeição, como nos disse Sri Aurobindo.




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Maravilhoso!!