Estrada e caminho.
- Marina Linhares

- 28 de out. de 2024
- 3 min de leitura
Termino a última aula por volta das oito da noite, depois de ter começado o dia as quatro da manhã. Visto a jaqueta, a calça da moto, tranco a escola de yoga, e vou. As vezes gosto de usar os fones de ouvido, vou escutando o gps por dentro do capacete, que guia um percurso que já estou habituada a saber.

Rapidamente chego à rodovia que me leva até em casa, o trajeto dura em média 40 minutos, se marcados no relógio. Acontece que o tempo não é sentido sempre igual, e tem dias que voltar para casa é caminho, tem dias que é estrada.
Quando é estrada, é jornada. Há um esforço. O percurso não passa, já conheço os buracos e lombadas, acelero, e o deslocamento parece tão lento. As luzes dos carros entram nos olhos, o som chega aos ouvidos. Olho os retrovisores, ando no corredor das motos e preciso sair quando chegam os entregadores, eles tem a pressa da entrega. Eu já percebi que a pressa não faz o tempo da jornada passar diferente, então sigo. Nem devagar, nem rápido. Nem redenção, nem superação. Depois de uma curva no corredor azul, o asfalto cedeu, uma leve depressão no chão e a tampa do bueiro barulhento sempre me fazem sentir frio na barriga. Há um ritmo, e quando olho a minha volta, tudo se move nessa ordem, desde os processos mais simples, até os mais complexos. Quando algo está fora do ritmo, acidente.
Quando chego perto de casa, a estrada fica curta, entro no estacionamento, paro no elevador com a moto, e me deixam no primeiro andar. Desço de escada, e vou andando pela rua sempre agitada de gente, longa, e a mochila nas costas me remete a uma peregrinação.
Em outro dia, tudo se repete. Acontece que a estrada vira caminho. Quando é caminho, é suave. Sinto que esse contentamento me traz o que está por vir, e isso faz o trajeto ficar então, menor. Repito a preparação das roupas, coloco os fones e o capacete, e vou. Uma fresta na viseira faz o vento que entra ser macio, e até o escuro do céu tem nas entrelinhas, mais cor.
Quando é caminho, descubro que o frio na barriga ao passar pela depressão do asfalto faz a moto e o meu corpo receberem um solavanco, e nesse momento o coração palpita mais vivo. Descubro no corpo até onde ir, e ser. Nesses dias, não me importo se vou, se volto. Não tem atraso, não tem pressa, a vida é vivida no tempo.
Chegando perto de casa, observo o que se celebra nas ruas. Vejo os encontros nos bares, escuto as conversas animadas e me parece um dia de verão. Viro a esquerda, paro no segundo andar do estacionamento. Desço pelas escadas, paro para conversar com o vigia e aviso que só volto dali uns dias, começo o caminho com a mochila nas costas que hoje me faz mais sentido. Nos dias de caminho, me lembram quanta coragem cabe nela, e do caminho, se faz travessia, e me atravessa um caminho sem pressa.
Ao que tudo indica, nada permanece, nem caminho, nem estrada. Por enquanto, tudo está, nada é. Abro o portão do prédio, subo os dois lances de escada, mas agora sentindo, observando de perto enquanto desperta. Entro em casa, acendo uma luz mais baixa, e me ponho sentada, centrada. Pelo corpo o ritmo pulsante do caminho, tudo o que eu conheço e não conheço cintilando. A calma do ritmo que é inerente a infinidade pulsando como uma música em mim, o caminho eu fiz andando dentro do céu.
Tem dias que são caminho, tem dias que são estrada. O caminho vivifica, passa por onde passa e parece que faz um acordo com a vida, de trazer mais vida. A estrada ensina, passa por desertos, tempestades, revela algumas miragens, atravessa os espaços tomando para si o tempo, e as vezes deixa o vazio.
Pronta para dar um passo no espaço que, seja caminho ou estrada, não sirva apenas para passar.




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Ficaria horas lendo suas escrituras... é incrível como consegue transmitir sensações tão táteis através de palavras sutís. Me sinto revigorado e animado para prestar mais atenção aos detalhes da vida!
Que texto lindo, Mari!
Lindo, leve e verdadeiro. Feliz por acompanhar sua visão de ver o mundo
Amo ler seus posts, sempre com tanta sensibilidade. Viajo com você na garupa da sua moto embora meu coração de mãe te queira sempre em segurança.