O Bardo e o aeroporto.
- Marina Linhares

- 25 de dez. de 2024
- 4 min de leitura
Portas em automático. Afivelar os cintos. Estou sentada na poltrona do corredor ao lado de um casal, que para a meu infortúnio, não trocou sequer um olhar me dando a oportunidade de iniciar uma conversa. Talvez eu seja a senhorinha que gosta de conversar, e que você evita quando está no metrô ou no ônibus. Eu gosto de ouvir o que as pessoas tem a dizer, gosto da “escutatória” (como diria Rubem Alves).

O avião começa a se movimentar. Como não estou na janela, já me entretenho em escolher algum filme para assistir, mas não dá tempo, caio no sono. Acho que é o sono não dormido no ano que me acomete naquele momento, porque perco a janta, não escuto e nem me incomodo com as luzes e a falta de conforto que é dormir sentada.
O vôo de 14 horas acontece entre um abrir e fechar dos meus olhos, com alegria (e fome) recebo o café da manhã, e enquanto como, assisto a um filme indiano. Foram mais duas horas de vôo para aterrissar em Istambul, e agora 14 horas de espera até finalmente ir para Kathmandu, o meu primeiro destino nessa jornada.
Espero o tempo passar observando o ir e vir das pessoas. Esse é um dos maiores aeroportos do mundo, e posso assistir um número considerável de culturas que se apresentam em cada pessoa que passa por mim por meio de fisionomias diferentes, roupas, e até pelo formato das famílias. Assisto e observo diferentes pensamentos que aparecem para mim. O aeroporto sendo um lugar que recebe as culturas, que abriga as memórias e histórias de cada um.
No Budismo usamos o termo bardo, uma palavra tibetana que significa “estado intermediário”, ou “entre dois momentos”. Quando alguém morre, sua consciência muito sútil deixa o corpo físico para se encaminhar para o próximo nascimento, e é esse tempo entre uma encarnação e a próxima que denominamos bardo. Costuma durar em média 45 dias, e de acordo com o Livro Tibetano dos Mortos, a consciência passa por uma jornada crucial repleta de visões e experiências que refletem tanto a natureza essencial da mente quanto o karma acumulado do indivíduo. Se a pessoa reconhecer esse momento (e isso acontece por ter treinado ao longo da vida meditação e ter experimentado um controle mental muito elevado), pode utilizar esse estado de “entre-nascimentos” para direcionar a mente para uma encarnação mais afortunada.
O bardo é um momento de grande potencial para a consciência – um período de transição em que a libertação da ignorância e o reconhecimento de quem se é, é possível, mas também um período de vulnerabilidade às forças do karma e às ilusões da própria mente. A sua qualidade mental ao longo da sua vida vai determinar as direções do seu próximo nascimento, é tudo com você. Gosto dessa auto-responsabilidade.
Enquanto viajo, abandono minha rotina, casa, hábitos, e o convívio com as pessoas que amo. Sozinha, com poucas coisas, diria que com o essencial, vou para esse outro lugar encontrar outros amigos, criar outras lembranças e viver essa outra cultura, procurando fazer a minha existência o mais útil possível. Acontece que esse movimento todo não é muito bem estabelecido dentro de mim, e imagino que deva ser como se eu não tivesse treinado nada a minha própria mente para o momento do bardo entre os nascimentos, porque sinto a saudade de quem eu deixo, sinto a saudade de quem estou indo encontrar. Gosto das duas vidas que tenho nesses dois lugares. Com frequência tento uni-las, quando estou em casa escuto as músicas, acendo o incenso que me transporta para a sala de meditação do monastério, revejo fotos, e no monastério sigo dando as aulas de Yoga, apreciando o café da manhã, brincando com as crianças e participando da vida em comunidade que eu tanto gosto.
Acredito que a espiritualidade começa quando nos decidimos nunca parar de tentar. Eu fiz um compromisso, comigo mesma, de ir além, não importa o que me aconteça. Preciso ir além de mim, e manter o esforço de não voltar à zona de conforto, sempre em contato com as minhas próprias fronteiras, sempre buscando me elevar, atravessar.
Assim como no bardo, ir além é sair do lugar onde você está, e confiar no que virá. Sair constantemente de nós mesmos e estar disposta, o tempo todo, em todas as circunstâncias a trabalhar com o coração, observar que a mudança pressupõe ousar colocar a prova o que nos é conhecido e nossa necessidade de conforto e segurança, para experimentar algo novo. O aeroporto também é um espaço transitório – raramente o destino final de alguém. Um entre vidas e espaço, é onde as pessoas estão em movimento, deixando um lugar e se preparando para chegar a outro. As vezes é confuso, inseguro.
Mas posso dizer, com alguma certeza, que tanto movimento tem me pedido terra firme, porto-seguro. Segundo a tradicional escritura indiana Bhagavad Gita, todo morrer é um nascer, eu me engracei com a vida e quero junto agora.

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