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Uma inteireza de incertezas.

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Ando de um lado para o outro. Resolvo uma coisa aqui e ali, respondo mensagens, confirmo aulas. Preciso me sentar na frente do espelho e me olhar por alguns minutos. Sentar na frente do espelho recém-instalado, na casa recém habitada, para olhar nos mesmos olhos de sempre.

Sento-me no chão, em frente ao espelho, e olho. A luz entra pela janela a esquerda deixando o verde dos olhos mais verde e o amarelo do cabelo, mais amarelo. Depois de olhar, enxergo. E só então começo o mergulho adentro.

Sou um empilhamento de sensações, uma sobreposta a outra, sem ordem de prioridade, um caos de pensamentos que aparecem e desaparecem assim como a pilha das sensações que cresce desalinhada. Uma sutileza de tantas coisas finitas, vastas e intensas. Uma inteireza de incertezas.

Todos os dias vou passar por esse mesmo espelho então, indo e vindo repetindo o dia a dia, medindo a aparência, pensando no que tenho que resolver, e é só isso? Esses olhos que me encaram agora, vão seguir me acompanhando a olhar o mundo, repetindo a pergunta que me faço a tantos anos, é só isso?

Não posso me conformar. Não tenho me conformado há tanto tempo que a vida seja só um ir e vir, e repetir, e só. Olho nos meus olhos e sei que não há ponto de chegada. O mergulho adentro é estreito, uma imensidão abissal, e quero viver esse mergulho sendo uma criatura que se encanta e se maravilha. Não estou a passeio, e nem de visita. Eu estou para a Vida Maior, a Vida Divina.

Acredito que o meu viver seja experimentar o fluir em seu máximo potencial, maravilhar-me, ter curiosidade, olhar nos olhos que olho agora com a curiosidade de quem olha pela primeira vez os mesmos olhos, estar no meu corpo e habitá-lo para sentir o máximo do que acredito ser o Divino. Viver devagarinho, mas cheia de inteireza, ainda que incerta.

Então, a cada vez que eu passar por esse espelho, vou me dispor a olhar os olhos com o encantamento de quem enxerga os detalhes, de quem enxerga a vida todos os dias sem saber como vai ser, e por isso totalmente entregue a verdade única que aparece, deixando o Sopro que me atravessa, me levar, me guiar.

A visão estará turva em alguns momentos, mas se tornará clara à medida que se reencontre, o corpo vibrará intensamente buscando muitas formas de desfrutar do que é, os poros se abrirão, a respiração fluirá. Estou aqui, por trás dos olhos, estou viva, vibrante para algo maior que eu mesma. Em meu corpo, encontro sempre o espaço vazio – livre e aberto – em que posso olhar os olhos e me lembrar do Ser que sou.

 

 

 

 
 
 

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